O Sr. Walter
Uma História quase real
Cap. I — Mensageiro-chefe
Lembrei-me de não tocar a campainha. O Sr. Walter era muito metódico e, dali a cinco ou seis minutos, estaria acordado. Permaneci imóvel e incólume, com o rosto próximo à porta, admirando as nuances do seu alto-relevo. Esta verdadeira obra-prima da marchetaria tinha uma altura singular, assim como todas as entranhas e bifurcações da mansão. Uma mansão fora das regras e dos padrões de medida; parecia-me sempre que estava saindo quando, na verdade, estava entrando. Embaralhava-me nos corredores, passando por cômodos com mobiliário barroco e, em seguida, por salas modernas cercadas por vidraças. Estátuas e quadros renascentistas num salão; outro com colunas gregas e chafarizes adornados com pequenos anjos. Quando um empregado se aproximava para corrigir minha direção, eu agradecia solenemente.
Naquele dia, guiou-me até ali um recado, pois tampouco naquela casa se usava este artifício chamado telefone. “O Sr. Walter gosta de olhar nos olhos”, dizia a governanta, apesar de o milionário preferir tecer comentários e dar dicas sobre os estilistas mais famosos e as últimas novidades do mundo da moda masculina olhando diretamente para o que vestíamos. Certa vez, fez-me voltar para casa e trocar de roupa sem dizer uma palavra; só consegui transmitir-lhe a mensagem ao retornar com andrajos dignos de um aristocrata.
Perdi-me na quarta porta à esquerda — ou seria a terceira à direita? Enfim, cheguei ao escritório de uma forma inesperada. Você pode puxar todos os livros das estantes, empurrar quadros e inclinar os atiçadores de fogo das lareiras o quanto quiser, mas jamais imaginaria que haveria uma placa acima de um interruptor com os dizeres: “Passagem secreta”. Como também não me lembrava do trajeto feito até ali para poder retornar, toquei rapidamente o interruptor com a ponta do dedo, num misto de medo e curiosidade. As paredes se abriram — o que me fez sentir um pouco como um Moisés das passagens secretas —, correndo metade para um lado e metade para o outro.
Atrás de uma mesa de metal estava Sir Walter, com seu belo cachecol amarelo-ovo enrolado na cabeça como um turbante. Movia as mãos lentamente enquanto assinava alguns papéis; o mordomo — aquele que acabara de me abrir a porta e que, não sei como diabos, chegara tão rápido — conferia à cena certa nobreza.
— Entre — disse o Sr. Walter, pousando a caneta ao final de uma assinatura.
— Bom dia! Trago notícias da…
O mordomo levantou a mão direita em sinal de impedimento. Permaneceu assim por cinco segundos e então a abaixou.
— Trago notícias da Sra. Ieda. Ela manda dizer que chegará amanhã da Europa e pede que o senhor envie um carro ao aeroporto.
Fiz uma pausa, coloquei a mão no bolso e retirei um pedaço de papel onde havia escrito o número do voo, a companhia aérea e o horário. Mas o mordomo levantou a mão outra vez. O Sr. Walter me encarava com certa frieza.
— Qual o nome do seu simpático genitor? — perguntou.
— Belizário de Rosas e…
O mordomo abaixou e levantou a mão rapidamente. Depois fez menção para que eu continuasse. Mas não abaixou a mão, o que me deixou alguns segundos em dúvida. Titubeei.
Um pouco impaciente, o Sr. Walter balançou os braços, fazendo um gesto para que eu continuasse.
— Belizário de Rosas e Mourinho.
— E o seu nome?
— Alfonso Feira de Rosas e Mourinho.
Virou-se para o mordomo e continuou:
— Anote aí! Não, na linha de baixo: “Alfonso Feira de Rosas e Mourinho”. Isso. No cargo, escreva: Mensageiro-chefe.
Sem entender, tentei passar o restante da mensagem:
— O horário do voo 7532 é...
— Meu rapaz — interrompeu o velho Walter, cruzando as mãos sobre a mesa —, deixe este papel no armário da entrada quando for embora. Conheço-o há tempo suficiente. Hoje, espero que esteja claro, inicia-se uma nova jornada. Sei que não está trabalhando e que deseja, do fundo do coração, fazer algo útil na vida. Então, com todos os meus poderes, nomeio-o meu Mensageiro-chefe. O seu horário de trabalho, bem como o seu dormitório e formalidades afins, serão mostrados e exemplificados por Ferdinand Habsburgo, meu velho e amigo mordomo. Já pode abaixar a mão, Ferdinand — disse, percebendo pela visão periférica que a estátua do mordomo jazia ainda com a mão erguida.
— Mas, Sr. Walter, preciso falar com meus pais...
— Esta etapa já foi cumprida, meu jovem. E devo dizer que seu genitor está eufórico!
Eu já havia tido inúmeras surpresas. Uma vez, procurei um esquilo que havia sumido com um lenço bordado pela avó do Sr. Walter, a Sra. Eva Limberg. A propósito, a família Limberg, da qual o Sr. Walter é o único representante vivo, sempre foi muito rica. Mas de uma riqueza um pouco lúgubre. E, graças à extravagância do último Limberg, menos lúgubre atualmente.
Outra vez, em meu décimo sexto aniversário, visitei a mansão para entregar uma encomenda. A porta estava aberta e entrei sorrateiramente. O Sr. Walter estava de pijama jogando pingue-pongue com a Sra. Sara — a governanta — sobre a mesa de centro de uma enorme sala decorada com apetrechos egípcios. Mas parou imediatamente e me perguntou:
— Você viu? Acho que Madam Sara está se aproveitando da minha inocência. A bola foi fora!
Vesti-me como Mensageiro-chefe. O uniforme tem um tom esverdeado, um sobretudo de lã para o inverno e calças ligeiramente largas. Minha mãe procurou adaptar o traje o melhor que pôde ao modelo, ajustando aqui e ali. Meu pai — digo, meu genitor — parabenizou-me com tapinhas nas costas e levou-me até a mansão, despedindo-se rapidamente e tomando o rumo de casa.



Bora pra frente! Num larga mais não! Está ficando muito bom isso!